Da floresta à universidade: Conheça pesquisadores indígenas que produzem ciência a partir da conexão com saberes tradicionais

  • 19/04/2026
(Foto: Reprodução)
Dia dos Povos Indígenas é comemorado neste domingo Bruno Cecim/Agência Pará “Sem os rios, sem a floresta, a gente perde a nossa história”: A frase da pesquisadora indígena Manoela Karipuna resume um debate que, em 2026, ocupa governos, universidades e conferências internacionais: o futuro da Amazônia. No Pará, esse debate também passa por um outro caminho: o da ciência produzida por indígenas, que cresce dentro das universidades e se conecta diretamente com o território, a língua e a vida nas comunidades. O número de indígenas no ensino superior brasileiro aumentou mais de 300% na última década. Na Amazônia Legal, mais de 53 mil estudantes indígenas ingressaram em universidades públicas entre 2012 e 2022. A pesquisadora Manoela Karipuna, do povo Karipuna, destaca que o avanço é recente em um país com mais de 500 anos de história marcada pela exclusão desses povos dos espaços acadêmicos. Para ela, mais do que presença, esse movimento amplia também a forma de produzir conhecimento. “Por muito tempo foram os outros que contaram a nossa história”, afirma. 🌳A chamada ciência indígena reúne conhecimentos construídos ao longo de gerações a partir da observação direta da natureza, do convívio com o território e da transmissão entre famílias e comunidades. Esse saber orienta práticas como o uso de plantas medicinais, o cultivo da roça, a leitura de ciclos ambientais e a preservação de línguas. Em um momento em que temas como mudanças climáticas e conservação ambiental ganham centralidade no debate global, esses conhecimentos passam a dialogar também com a produção acadêmica. Neste Dia dos Povos Indígenas (19), pesquisadores do Pará como Manoela Karipuna, Emiliano Kaba e Vera Arapium mostram parte desse movimento, desenvolvendo estudos que partem da experiência nos territórios para abordar temas como meio ambiente, linguagem e organização social. VEJA TAMBÉM: Semana dos Povos Indígenas reúne programação aberta ao público 'Raio que o parta': Cacos de azulejo contam a história da arquitetura modernista de Belém Dia de Tiradentes: veja o que abre e o que fecha no feriado em Belém 3ª Semana dos Povos Indígenas promove feira de gastronomia e cultura dos povos originários Entre a universidade e a floresta No campo da biologia, o pesquisador Emiliano Kaba, do povo Munduruku, construiu sua trajetória a partir da curiosidade sobre a natureza. Formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ele atua no resgate e manejo de animais silvestres em áreas urbanas, lidando com espécies como serpentes, preguiças e iguanas — muitas vezes deslocadas por mudanças no ambiente, como desmatamento e expansão urbana. “O contato direto com o meio vivo permite entender, na prática, o funcionamento da natureza”, afirma. Biólogo Emiliano do Nascimento Cabá, do povo Munduruku, atua em resgate de fauna e na fotografia AdryaMarinho A atuação permite observar, no dia a dia, como a ocupação humana impacta a fauna e altera o equilíbrio dos ecossistemas. Além da rotina na cidade, Emiliano mantém vínculo com a Terra Indígena Munduruku, no sudoeste do Pará, onde acompanha práticas de uso dos recursos naturais baseadas no equilíbrio com o ambiente. “A gente aprende como extrair recursos sem causar danos severos ao ecossistema.” Para ele, a ciência se constrói nesse encontro entre o conhecimento acadêmico e a experiência no território. “O objetivo é integrar o conhecimento universitário aos saberes tradicionais.” Ciência que nasce do território Doutora em antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a pesquisadora Manoela Karipuna, do povo Karipuna, investiga como o conhecimento produzido por mulheres indígenas sustenta a vida nos territórios. Manoela Karipuna, pesquisadora indígena, está entre os convidados da mesa-redonda de abertura da Semana Woltaire Masaki A pesquisa analisa práticas como o uso de plantas medicinais no cuidado com a saúde, o cultivo da roça, a participação em rituais e a atuação política dentro das comunidades. A partir da oralidade e das experiências vividas pelas mulheres da aldeia, Manoela busca compreender como esses saberes são organizados e transmitidos entre gerações — e como ajudam a manter o equilíbrio entre território, cultura e meio ambiente. “A história da aldeia surge a partir da memória e da oralidade das mulheres”, explica. Ao longo da trajetória acadêmica, ela também tem se dedicado a estudar a presença indígena na produção científica, especialmente o papel de mulheres indígenas na escrita sobre os próprios povos. “Por muito tempo foram os outros que contaram a nossa história. Agora somos nós que estamos escrevendo quem nós somos.” Língua, educação e permanência cultural A pesquisadora Vera Arapium foi a primeira estudante indígena a ingressar no mestrado do programa em que se formou, cursado em Fortaleza — um exemplo de como a presença indígena na pós-graduação ainda é recente no país. Ela iniciou a trajetória acadêmica na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde pesquisou o preconceito linguístico e o processo de perda de línguas indígenas na região do Baixo Tapajós. No mestrado, aprofundou os estudos sobre o Nheengatu, língua que voltou a ser ensinada em escolas indígenas. Pesquisadora Vera Arapium é mestra em diversidade sociocultural Adrya Marinho Hoje, ela coordena ações de fortalecimento de línguas indígenas no Pará, com foco na formação de professores, produção de material didático e incentivo ao uso da língua no cotidiano das comunidades. "Nosso trabalho é fortalecer as línguas indígenas com os povos com os quais atuamos.” Na região de Santarém, professores e monitores indígenas atuam diretamente no ensino, ampliando o número de falantes e garantindo a transmissão da língua entre gerações. “São eles os principais responsáveis pelo fortalecimento da língua.” Para Vera, a presença indígena na universidade tem impacto direto nesse processo. “Temos muitos parentes pesquisando e escrevendo sobre suas próprias realidades.” Cresce presença, mas evasão ainda é desafio Conheça alguns dos pesquisadores indígenas do Pará que produzem ciência a partir da conexão com saberes tradicionais Woltaire Masaki e Adrya Marinho/Montagem g1 O crescimento da presença indígena no ensino superior reflete mudanças no acesso à universidade, impulsionadas por políticas de inclusão e pela ampliação da educação básica. Apesar do avanço, a permanência ainda é um desafio. Na Amazônia, menos de 10% dos estudantes indígenas que ingressaram no ensino superior entre 2012 e 2022 concluíram o curso, segundo levantamento com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. A realidade aparece nos relatos de quem vive esse percurso. “O conteúdo teórico apresenta desafios na leitura e na pesquisa. Muitos indígenas não têm familiaridade com textos acadêmicos em português ou inglês”, afirma o biólogo Emiliano Kaba. Para ele, a distância entre os territórios e as universidades, mesmo dentro do mesmo Estado, também pesa. “Belém fica a cerca de 1.800 quilômetros da minha terra. A saudade da família dificulta a permanência.” Para Manoela, o caminho também envolve disputas simbólicas sobre quem pode ocupar esses espaços. “As pessoas questionam nosso pertencimento, como se ser indígena não tivesse direito de ocupar esses espaços.” Mesmo diante desses desafios, pesquisadores indígenas têm ampliado a presença na universidade e na produção científica, levando para o centro do debate conhecimentos que partem dos próprios territórios. “A ciência tem o papel de entender o mundo e buscar equilíbrio no uso dos recursos para as próximas gerações”, diz Emiliano. Biólogo Emiliano do Nascimento Cabá, do povo Munduruku, aponta grandes distâncias como um dos desafios Adrya Marinho Veja mais notícias do estado no g1 Pará

FONTE: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/04/19/da-floresta-a-universidade-pesquisadores-indigenas-produzem-ciencia-a-partir-da-conexao-com-saberes-tradicionais.ghtml


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