Avenida Liberdade, na Grande Belém, é entregue em meio a controvérsias ambientais e disputas judiciais
02/04/2026
(Foto: Reprodução) COP30 - Avenida Liberdade avança sobre área de floresta em Belém
A avenida Liberdade, em Belém, foi entregue e inaugurada nesta quinta-feira (2), sob a promessa de revolucionar a mobilidade na Região Metropolitana de Belém e um cenário de intensas polêmicas ambientais e ações judiciais.
Com 14 quilômetros de extensão, a Avenida Liberdade foi projetada para conectar a Alça Viária à avenida Perimetral, integrando três municípios (Marituba, Ananindeua e Belém) e criando uma nova alternativa de acesso à capital.
A obra, que tinha como data de entrega inicial outubro de 2025, antes da Conferência das Partes (COP 30), foi entregue sob a promessa de ser solução para os problemas históricos de mobilidade urbana na capital paraense inclui também três quilômetros de duplicação da Alça Viária.
A Alça Viária é um complexo rodoviário de cerca de 74 km que conecta a Região Metropolitana de Belém ao interior do Pará e ao Porto de Vila do Conde) entre a BR-316 e a entrada da nova via.
Avenida Liberdade durante obras.
Edivaldo Sodré / Agência Pará
Segundo o governo do Pará, a avenida Liberdade é a primeira via expressa sem interrupções da Amazônia, visando beneficiar mais de dois milhões de pessoas. A expectativa é de maior fluidez no trânsito, redução do tempo de deslocamento e o desafogamento de vias na Grande Belém.
Além disso, o corredor também pode facilitar o acesso ao Porto de Vila do Conde, em Barcarena, impactando a ligação com as regiões sul e sudeste do estado.
Em termos de medidas ambientais, o projeto prevê a implantação de 34 passagens de fauna – sendo 22 aéreas e 12 subterrâneas – além da preservação de áreas naturais, quatro viadutos e duas pontes, buscando ampliar a segurança e a capacidade de tráfego.
Críticas, impactos e ações judiciais
Apesar das promessas de progresso, a construção da Avenida Liberdade é alvo de fortes críticas de moradores e ambientalistas, que denunciam severos danos socioambientais. Famílias ribeirinhas que dependem da pesca e do extrativismo relatam a destruição de meios de subsistência.
"Quando eles começaram a passar a máquina, eu chorei de tanta dor, tanta tristeza, que eu via eles derrubando, sem pena o açaí, porque aqui é o nosso ganha pão", desabafou Ana Alice dos Santos, agroextrativista.
O pescador Ivanildo da Silva acrescentou: "O peixe sumiu. O camarão, a gente pega bem pouquinho. A água está poluída", se referiu ao rio da região, que, segundo ele, recebeu rejeitos e sofreu assoreamento.
A obra, que suprimiu cerca de 72 hectares de floresta, atravessa uma unidade de conservação e impacta pelo menos 250 famílias de povos tradicionais. A Defensoria Pública do Estado do Pará questionou a obra judicialmente por falta de consulta adequada às comunidades.
Traçado da avenida.
Arte/g1
Em novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou a obra nas redes sociais.
“They ripped the hell out of the rainforest of Brasil to build a four lane highway for environmentalists to travel. It's become a big scandal!”
Tradução: “Devastaram a floresta do Brasil para construir uma rodovia de quatro pistas para ambientalistas. Virou um grande escândalo!”, escreveu o republicano, referindo-se à avenida Liberdade, uma obra que não possuía ligação direta com a COP 30, segundo o governo brasileiro.
O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), respondeu: “Em vez de falar de estradas, o presidente norte-americano Donald Trump deveria apontar caminhos contra as mudanças climáticas. [...] No mínimo, (Trump deveria) seguir o exemplo do Governo do Brasil e investir mais de R$ 1 bilhão para salvar florestas no mundo".
Mais recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou, entre os dias 23 e 26 de março, duas ações na Justiça Federal para tentar suspender as obras em áreas ocupadas por ribeirinhos e garantir a regularização fundiária de territórios tradicionais.
O MPF apontou que a construção atingiu historicamente as comunidades de Nossa Senhora dos Navegantes, Beira-Rio e Uriboquinha, entre Belém, Ananindeua e Marituba, sem a devida consulta.
O órgão também denunciou "esbulho possessório", desmatamento, destruição de milhares de pés de açaí e demolição de moradias sem indenização prévia ou avaliação adequada dos impactos.
Além disso, o MPF levantou a preocupação de que as barreiras físicas da via possam isolar as comunidades de locais de cultivo e coleta. A Justiça Federal ainda analisará os pedidos de urgência do Ministério.
Erosão faz asfalto ceder em trecho da avenida Liberdade em Belém
Redes Socias
Problemas como alagamentos após intervenções na Avenida Liberdade já geraram protestos, como o fechamento da Alça Viária em Marituba, no último dia 12. Também houve registros de erosão e cedimento de asfalto em trechos em obras.
Posicionamento do governo
Em resposta às acusações, a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) afirmou que a obra da avenida Liberdade possui "licença ambiental concedida após rigoroso processo de licenciamento, com acompanhamento técnico contínuo para controle de impactos".
A Semas pontuou que a iniciativa foi debatida em audiências públicas com ampla participação da população e de representantes de comunidades tradicionais.
A Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), informou que enviou equipes técnicas para avaliar possíveis impactos, como os alagamentos relatados.